Estágio do espelho

Lacan

Sua primeira intervenção na psicanálise é para situar o Eu como instância de desconhecimento, de ilusão, de alienação, sede do narcisismo. É o momento do Estádio do Espelho. [1] O Eu é situado no registro do Imaginário, juntamente com fenômenos como amor, ódio, agressividade. É o lugar das identificações e das relações duais. Distingue-se do Sujeito do Inconsciente, instância simbólica. Lacan reafirma, então, a divisão do sujeito, pois o Inconsciente seria autônomo com relação ao Eu. E é no registro do Inconsciente que deveríamos situar a ação da psicanálise.

Esse registro é o do Simbólico, é o campo da linguagem, do significante. Lévi-Strauss afirmava que “os símbolos são mais reais que aquilo que simbolizam, o significante precede e determina o significado”, no que é seguido por Lacan. Marca-se aqui a autonomia da função simbólica. Este é o Grande Outro que antecede o sujeito, que só se constitui através deste – “o inconsciente é o discurso do Outro”, “o desejo é o desejo do Outro”.

O campo de ação da psicanálise situa-se então na fala, onde o inconsciente se manifesta, através de atos falhos, esquecimentos, chistes e de relatos de sonhos, enfim, naqueles fenômenos que Lacan nomeia como “formações do inconsciente”. A isto se refere o aforismo lacaniano “o inconsciente é estruturado como uma linguagem”.

O Simbólico é o registro em que se marca a ligação do Desejo com a Lei e a Falta, através do Complexo de Castração, operador do Complexo de Édipo. Para Lacan, “a lei e o desejo recalcado são uma só e a mesma coisa”. Lacan pensa a lei a partir de Lévi-Strauss, ou seja, da interdição do incesto que possibilita a circulação do maior dos bens simbólicos, as mulheres. O desejo é uma falta-a-ser metaforizada na interdição edipiana, a falta possibilitando a deriva do desejo, desejo enquanto metonímia. Lacan articula neste processo dois grandes conceitos, o Nome-do-Pai e o Falo. Para operar com este campo, cria seus Matemas.

É na década de 1970 que Lacan dará cada vez mais prioridade ao registro do Real. Em sua tópica de três registros, Real, Simbólico e Imaginário, RSI, ao Real cabe aquilo que resiste a simbolização, “o real é o impossível”, “não cessa de não se inscrever”. Seu pensamento sobre o Real deriva primeiramente de três fontes: a ciência do real, de Meyerson, da Heterologia, de Bataille, e do conceito de realidade psíquica, de Freud. O Real toca naquilo que no sujeito é o “improdutivo”, resto inassimilável, sua “parte maldita”, o gozo, já que é “aquilo que não serve para nada”. Na tentativa de fazer a psicanálise operar com este registro, Lacan envereda pela Topologia, pelo Nó Borromeano, revalorizando a escrita, constrói uma Lógica da Sexuação (“não há relação sexual”, “A Mulher não existe”). Se grande parte de sua obra foi marcada pelo signo de um retorno a Freud, Lacan considera o Real, junto com o Objeto a (“objeto ausente”), suas criações.

Quando eu estava no 2° ano do ensino médio, fiz uma apresentação sobre alienação entre os jovens. Como sempre tive uma facilidade pra psicologia achei nas teorias de Lacan (como visto acima) a explicação perfeita para uma alienação em uma pessoa.

A criança quando começa a falar e ter uma básica consciência, ela refere-se a si mesma em terceira pessoa: “João quer água”. Isto identifica o que Lacan descreve como Instância de Desconhecimento. Somente quando o ser disciplinador (na maioria das vezes a mãe ou um ser feminino) começa a identifica-lo como um ser próprio: “Eu quero água”, a criança começa a ter conhecimento do seu Eu e inicia a construção de sua consciência.

Exemplos práticos dessa teoria foi um casal de cientistas e psicanalistas (se não me engano) pegaram o filhote de um chimpanzé e o criaram junto a uma criança recém-nascida tratando-o como uma criança (essa experiência é um absurdo, mas “tudo pelo bem da ciência”). O resultado dessa experiência foi que o chimpanzé (que compartilha 96% do DNA humano) começou a agir com uma criança normal (dependente de alimentação, higiene, etc). Claro que esta similaridade parou a partir do momento que a criança começou a falar e o chimpanzé não (nisso eles “devolveram” o chimpanzé para a natureza).

Enfim, a caracterização inicial da personalidade começa com um ser disciplinador. Isto não somente quando somos bebês, mas em qualquer época de nossa vida ou lugar onde encontramos um ser “disciplinador” e começamos a adicionar em nossa personalidade aquilo que nos é ensinado (a famosa alienação).

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